A lavagem nasal com solução salina é indicada como terapia adjuvante em diversas doenças nasais e do trato respiratório superior. Sua eficácia varia de acordo com a doença e o mecanismo utilizado.
Rinossinusite crônica
A irrigação nasal com solução salina é amplamente recomendada como tratamento adjuvante para rinossinusite crônica (RSC), com evidências de eficácia para alívio dos sintomas e melhora da qualidade de vida (QV). Apesar do consenso geral sobre sua utilidade e segurança, existem diferenças sutis entre as recomendações quanto ao volume, tipo de solução e técnica nos documentos europeu, European Position Paper on Rhinosinusitis and Nasal Polyps (EPOS), americano, American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery (AAO-HNS) e brasileiro (Tabela 1).1,2
Recomendações internacionais
- EPOS:1
- Indica irrigação nasal para RSC, com ou sem pólipos, como terapia adjuvante;
- Prefere soluções salinas de alto volume (> 100 mL) e baixa pressão, por promover melhor limpeza da mucosa;
- Soluções hipertônicas podem ter um benefício leve adicional sobre as isotônicas, mas com maior risco de irritação.3
- AAO-HNS:2
- Também recomenda a irrigação como adjuvante, enfatizando o uso de volumes maiores e adequada técnica;
- Ressalta que a irrigação não substitui esteroides tópicos ou outras terapias, mas pode reduzir sintomas e necessidade de antibióticos.3
Recomendações brasileiras
O Consenso Brasileiro Rinossinusites: Evidências e Experiências, de 2024,4 reforça a irrigação nasal com solução salina como um dos principais tratamentos adjuvantes para pacientes com RSC. O documento destaca que ela
Quanto à escolha da solução, a recomendação central é o uso de solução salina isotônica, considerada eficaz e melhor tolerada pela maioria dos pacientes. A solução hipertônica é reconhecida como uma alternativa possível, mas é associada a maior desconforto, como ardor nasal. O consenso também admite a utilização de ringer lactato como opção equivalente à solução salina, não havendo diferença significativa em relação a eficácia entre ambas.
O volume e o método de irrigação recebem atenção especial: o Consenso recomenda apois essa técnica permite maior penetração da solução e remoção mais eficaz de secreções em comparação com dispositivos de baixo volume, como sprays ou gotas. Para isso, são indicados dispositivos, como a seringa grande (≥ 60 mL), o squeeze bottle, o neti pot ou garrafas pressurizadas, cuja escolha deve ser individualizada para cada paciente, considerando sua preferência e conforto.
Pontos em comum em todos os consensos:
- Reconhecem a irrigação como segura e eficaz;
- Recomendam uso diário ou de maior frequência, conforme tolerância;
- Alertam para não substituir tratamentos farmacológicos de base.
Tabela 1. Comparação das recomendações por consenso
|
Aspecto |
EPOS 20201 |
AAO-HNS 20152 |
Consenso Brasileiro 20244 |
|
Indicação |
Adjuvante para RSC, com ou sem pólipos |
Adjuvante para RSC |
Adjuvante para RSC |
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Solução preferida |
Isotônica ou levemente hipertônica |
Isotônica ou hipertônica |
Isotônica preferida; hipertônica possível, porém mais irritante; ringer lactato equivalente |
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Volume recomendado |
Alto (> 100 mL) com baixa pressão |
Alto (> 100 mL) |
Alto volume recomendado, com maior penetração nasal |
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Frequência |
1–2 vezes/dia |
1–2 vezes/dia |
1–2 vezes/dia, ajustado conforme tolerância |
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Dispositivos recomendados |
Garrafas de irrigação, neti pot, dispositivos de alto volume e baixa pressão |
Garrafas ou dispositivos similares |
Garrafas, seringa (> 60 mL), squeeze bottle, neti pot; individualizar conforme paciente |
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Adjuvantes opcionais |
Corticosteroides tópicos após lavagem |
Corticosteroides em separado |
Xilitol pode ser benéfico em RSC não tipo 2; hialuronato com efeito limitado; corticosteroides em separado |
RSC: rinossinusite crônica.
Adaptada de: Fokkens WJ, et al., 2020; Rosenfeld RM, et al., 2015; Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, 2024.1,2,4
Evidências adicionais da literatura
Vários estudos recentes complementam as recomendações dos consensos, fornecendo mais detalhes sobre eficácia e variações de técnica:
- Um estudo indiano mostrou melhora significativa dos sintomas e QV com irrigação salina associada a tratamento farmacológico, com boa adesão;5
- A revisão Cochrane reforçou a superioridade dos grandes volumes (> 100 mL) e hipertônicos para desobstrução e redução de sintomas, embora com evidência de baixa qualidade e mais epistaxe leve;6
- Outra revisão atualizada destaca que volumes altos com baixa pressão são os mais eficazes e geralmente bem tolerados, enquanto soluções hipertônicas podem reduzir mais a inflamação em detrimento de maior desconforto;7
- Estudo recente de Bangladesh reforça que a irrigação regular melhora sintomas em quase metade dos pacientes, especialmente quando feita de forma consistente;8
- Uma revisão narrativa sugere ainda que soluções com minerais ou água do mar podem ter benefícios adicionais, embora careçam de evidências robustas.9
Considerações finais
Os três consensos (EPOS 2020, AAO-HNS 2015 e o Consenso Brasileiro 2024) concordam que a irrigação nasal com solução salina de alto volume e baixa pressão, isotônica (ou levemente hipertônica, quando tolerada) é eficaz e segura como terapia adjuvante na RSC. A escolha do dispositivo e da solução deve ser individualizada para garantir adesão e conforto, evitando adjuvantes sem evidência.1,2,4
Referências
- Fokkens WJ, Lund VJ, Hopkins C, Hellings PW, Kern R, Reitsma S, et al. European position paper on rhinosinusitis and nasal polyps 2020. Rhinology. 2020;58(Suppl S29):1-464.
- Rosenfeld RM, Piccirillo JF, Chandrasekhar SS, Brook I, Kumar KA, Kramper M, et al. Clinical practice guideline (update): adult sinusitis. Otolaryngol Head Neck Surg. 2015;152(2 Suppl): S1-39.
- Zakrzewska JM. Position paper on rhinosinusitis and nasal polyps (EPOS 2012) oraz American Academy of Otolaryngology – Head and Neck Surgery (AAO-HNS 2014). Polski Przegląd Otorynolaryngologiczny. 2018;7(2):S31-40.
- Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. Rinossinusites: Evidências e Experiências 2024 [consenso na Internet]. São Paulo: ABORL-CCF; 2024. [acesso em 04 fev 2026]. Disponível em: https://aborlccf.org.br/wp-content/uploads/2024/11/ABORL-CCF-Consenso-Rinossinusite-2024-4.pdf.
- Ramachandran R, Pillai ST. A study on the efficacy of saline nasal irrigation in chronic rhinosinusitis. J Evol Med Dent Sci. 2021;10(30):2266-70.
- Chong LY, Head K, Hopkins C, Philpott C, Glew S, Scadding G, et al. Saline irrigation for chronic rhinosinusitis. Cochrane Database Syst Rev. 2016;4(4):CD011995.
- Jin L, Fan K, Yu S. Application of nasal irrigation in the treatment of chronic rhinosinusitis. Asia Pac Allergy. 2023;13(4):187-98.
- Haque MS, Saheeduzzaman, Rahman M, Rahman A. The efficacy of saline nasal irrigation in chronic rhinosinusitis: a single centre experience. Asian J Med Health. 2023;21(7):50-5.
- Casale M, Moffa A, Cassano M, Carinci F, Lopez MA, Trecca EMC, et al. Saline nasal irrigations for chronic rhinosinusitis: from everyday practice to evidence-based medicine. Int J Immunopathol Pharmacol. 2018;32:2058738418802676.