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DHA e plasticidade neural na infância: Evidências clínicas sobre aprendizagem, cognição e adaptação cerebral

Introdução

A infância é um período caracterizado por intensa plasticidade neural, fenômeno que permite ao cérebro reorganizar conexões, fortalecer circuitos e adaptar-se às experiências ambientais, educacionais e socioemocionais. Nesse contexto, o ácido docosa-hexaenoico (DHA), principal ácido graxo ômega-3 presente nas membranas neuronais, desempenha papel estrutural relevante na fluidez das membranas, na transmissão de sinais celulares e no funcionamento de redes associadas à atenção, ao processamento de informações e à aprendizagem. Entretanto, a relevância biológica do DHA não implica, por si só, benefício clínico consistente para todos os indivíduos, tornando necessária a avaliação das evidências provenientes de estudos clínicos controlados e revisões sistemáticas¹˒².

Evidências de estudos clínicos

Entre os estudos mais relevantes, destaca-se o DOLAB Study, ensaio clínico randomizado que avaliou 362 crianças de 7 a 9 anos com desempenho em leitura abaixo da média. Após 16 semanas de suplementação com 600 mg/dia de DHA, não foram observados benefícios significativos na amostra total. Contudo, análises de subgrupos previamente definidos demonstraram melhora da capacidade de leitura em crianças com os menores níveis de desempenho inicial, especialmente naquelas abaixo do 20º percentil. No subgrupo com leitura igual ou inferior ao 10º percentil a diferença foi ainda mais pronunciada, com valores relatados de p=0,04 e p<0,01, esses resultados sugerem que os efeitos do DHA podem ser mais evidentes em crianças com maior vulnerabilidade funcional, em vez de promover ganhos cognitivos homogêneos em toda a população pediátrica¹.

Por outro lado, nem todos os estudos demonstraram benefícios cognitivos. O ensaio clínico DOMInO, que avaliou a suplementação de DHA durante a gestação em mais de duas mil mulheres, não observou melhora significativa (p=0,99) no desenvolvimento cognitivo nem na linguagem das crianças avaliadas aos 18 meses de idade. Esse achado reforça a necessidade de interpretar a literatura de forma equilibrada, reconhecendo que os efeitos do DHA não são universais nem consistentes em todos os cenários clínicos 2.

A importância do DHA também foi investigada em populações de maior risco neurodesenvolvimental. Em crianças nascidas extremamente prematuras, um estudo publicado no New England Journal of Medicine verificou que a suplementação neonatal de DHA esteve associada a um aumento modesto, porém estatisticamente significativo, do quociente de inteligência aos cinco anos de idade. Embora relevante, esse resultado não deve ser extrapolado para crianças saudáveis nascidas a termo, já que as necessidades metabólicas e o contexto biológico dessas populações são diferentes3.

Revisões sistemáticas e meta-análises

Essa interpretação é reforçada por uma revisão sistemática que reuniu 33 ensaios clínicos randomizados envolvendo indivíduos entre 4 e 25 anos de idade. Os autores observaram que resultados cognitivos positivos foram mais frequentes quando a suplementação elevava adequadamente os níveis corporais de ômega-3 e fornecia doses superiores a 450 mg/dia de

 

DHA e EPA combinados. Ainda assim, os achados foram heterogêneos, demonstrando que fatores como dose, duração do tratamento, estado nutricional prévio e características da população estudada influenciam significativamente os resultados4.

As evidências provenientes de sínteses quantitativas seguem a mesma linha. Uma meta-análise recente sobre fórmulas infantis suplementadas com DHA e ácido araquidônico (ARA) identificou um efeito global discreto sobre alguns indicadores de desenvolvimento cognitivo, porém sem diferenças consistentes nos instrumentos clássicos de avaliação neuropsicológica. Da mesma forma, uma revisão Cochrane sobre ácidos graxos poli-insaturados em crianças e adolescentes com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) concluiu que não existem evidências suficientes para sustentar melhora consistente dos sintomas centrais da condição5,6.

Conclusão

Em conjunto, os dados disponíveis indicam que o DHA possui sólido racional biológico para participação nos processos de plasticidade cerebral e desenvolvimento neurológico. Entretanto, os benefícios clínicos observados tendem a ser modestos, dependentes do perfil da população avaliada e mais evidentes em grupos com maior vulnerabilidade neurodesenvolvimental ou pior desempenho basal. Assim, a suplementação de DHA deve ser compreendida como uma estratégia de suporte nutricional potencialmente favorável ao desenvolvimento cerebral, integrada a uma abordagem ampla que inclua alimentação adequada, estímulos educacionais, acompanhamento clínico e condições ambientais favoráveis ao aprendizado.¹⁻⁶

 

 

Referências Bibliográficas:
  1. Richardson AJ, Burton JR, Sewell RP, Spreckelsen TF, Montgomery P. Docosahexaenoic acid for reading, cognition and behavior in children aged 7-9 years: a randomized, controlled trial (the DOLAB Study). PLoS One. 2012;7(9):e43909. doi:10.1371/journal.pone.0043909.
  2. Makrides M, Gibson RA, McPhee AJ, Yelland L, Quinlivan J, Ryan P. Effect of DHA supplementation during pregnancy on maternal depression and neurodevelopment of young children. JAMA. 2010;304(15):1675-1683. doi:10.1001/jama.2010.1507.
  3. Gould JF, Makrides M, Gibson RA, Sullivan TR, McPhee AJ, Anderson PJ, et al. Neonatal docosahexaenoic acid in preterm infants and intelligence at 5 years. N Engl J Med. 2022;387(17):1579-1588. doi:10.1056/NEJMoa2206868.
  4. van der Wurff ISM, Meyer BJ, de Groot RHM. Effect of omega-3 long chain polyunsaturated fatty acids supplementation on cognition in children and adolescents. Nutrients. 2020;12(10):3115. doi:10.3390/nu12103115.
  5. Tian A, Xu L, Szeto IMY, Wang X, Li Effects of different proportions of DHA and ARA on cognitive development in infants: a meta-analysis. Nutrients. 2025;17(6):1091. doi:10.3390/nu17061091.
  6. Gillies D, Leach MJ, Perez Algorta G. Polyunsaturated fatty acids (PUFA) for attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) in children and adolescents. Cochrane Database Syst Rev. 2023;4(4):CD007986. doi:10.1002/14651858.CD007986.pub3.
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