Introdução
A lavagem nasal com solução salina é uma prática antiga, descrita há séculos em tradições como a ioga, e incorporada à medicina moderna por seus efeitos mecânicos e fisiológicos, consistindo na introdução de solução salina na cavidade nasal com o objetivo principal de remover secreções, crostas, alérgenos, poluentes e biofilmes microbianos aderidos à mucosa. Essa limpeza contribui para melhorar o transporte mucociliar, reduzir a carga inflamatória local e aumentar o conforto respiratório.
Ao longo das últimas décadas, estudos controlados e recomendações de sociedades médicas — como o European Position Paper on Rhinosinusitis and Nasal Polyps (EPOS) e a American Academy of Otolaryngology — Head and Neck Surgery (AAO-HNS) — consolidaram a lavagem nasal como uma terapia adjuvante em diversas condições das vias aéreas superiores (VAS).1,2
Os mecanismos utilizados para a irrigação nasal variam quanto ao volume, pressão e forma de entrega da solução. Esses fatores influenciam diretamente a eficácia da irrigação e devem ser considerados na escolha do método mais adequado para cada situação clínica. Por isso, compreender as diferenças entre os dispositivos disponíveis e suas aplicações em doenças como a rinite, sinusite aguda e crônica, infecções de VAS e pós-operatório nasal é fundamental para indicar corretamente essa intervenção.
Mecanismos e dispositivos para lavagem nasal
A lavagem nasal pode ser realizada com diferentes mecanismos, que variam principalmente em volume (quantidade de solução instilada), pressão (força com que a solução entra na cavidade nasal) e modo de entrega (manual, gravidade, spray pressurizado). Esses fatores determinam o alcance da solução nas fossas nasais e seios paranasais e influenciam diretamente a eficácia clínica.3
Os dispositivos mais usados são tradicionalmente classificados da seguinte forma:
- Spray pressurizado:
- Volume: baixo (< 10 mL por narina);
- Pressão: alta e localizada;
- Características: atomiza uma pequena quantidade de solução, cobrindo basicamente a mucosa anterior;
- Indicação: conforto sintomático em quadros leves de rinite;
- Consensos e diretrizes (Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial [ABORL-CCF], EPOS, AAO-HNS): sprays têm eficácia limitada para doenças mais graves, sendo mais úteis como complemento ou manutenção em quadros leves.
- Soluções em garrafa tipo squeeze (squeeze bottle):
- Volume: alto (100–250 mL por narina);
- Pressão: moderada e constante (operador dependente);
- Características: frasco maleável permite irrigação vigorosa com boa penetração nas cavidades e seios paranasais;
- Indicação: padrão-ouro em rinossinusite crônica (RSC), rinite moderada/grave e pós-operatório;
- Diretrizes (ABORL-CCF): preferido para RSC e pós-operatório, por promover maior limpeza mecânica, remoção de biofilme e melhor penetração de medicamentos tópicos.3,4
- Seringa com bico ou cateter:
- Volume: alto (≥ 100 mL por narina, somando múltiplas recargas da seringa);
- Pressão: moderada, controlada manualmente (operador dependente);
- Características: solução injetada com seringa e ponta adaptada, recarregada conforme necessário até atingir o volume recomendado; barata, eficaz e amplamente acessível;
- Indicação: semelhante ao squeeze bottle, ideal para RSC, rinite e pós-operatório;
- Diretrizes (ABORL-CCF): tão eficaz quanto o squeeze bottle para RSC e pós-operatório, desde que a técnica seja adequada para alcançar o volume alto recomendado.3,4
- Neti pot ou lota:
- Volume: alto (> 100 mL);
- Pressão: baixa (gravidade - operador independente);
- Características: solução flui por gravidade de uma narina para outra, menos agressiva;
- Indicação: boa para manutenção de rinite e RSC leve;
- Diretrizes (ABORL-CCF): reconhecido como eficaz, mas menos prático para pós-operatório, por não remover crostas tão eficientemente quanto dispositivos com maior pressão.3,4
O Consenso Brasileiro de Rinossinusite e o Consenso Brasileiro de Rinites recomendam:4,5
- Para RSC e pós-operatório de cirurgia endoscópica nasal: lavagem com alto volume e baixa à moderada pressão (squeeze, seringa ou neti pot) é superior aos sprays isolados para remoção de biofilme, secreções espessas e crostas;
- Para rinite alérgica (RA) moderada à grave: preferir irrigação com alto volume, embora sprays possam ser suficientes para quadros leves;
- Sprays pressurizados: úteis para conforto imediato e manutenção, mas insuficientes como únicas medidas em RSC ou no pós-operatório.
A Tabela 1 traz um resumo das recomendações por doença.
Tabela 1. Recomendações por doença
|
Doença / Situação |
Objetivo da lavagem |
Mecanismo recomendado |
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RSC |
Remover biofilme e secreção espessa, reduzir inflamação e entrega de medicação |
Alto volume, baixa/moderada pressão (squeeze, seringa, lota) |
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RA |
Remover alérgenos e reduzir sintomas |
Alto volume para moderada/grave; spray pode ser suficiente em grau leve |
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IVAS |
Sintomático: reduzir secreções e melhorar conforto |
Médio a alto volume |
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Sinusite aguda |
Drenar secreção e aliviar sintomas |
Alto volume, quando tolerado |
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Pós-operatório de cirurgia nasal |
Remover crostas, prevenir aderências e facilitar cicatrização |
Alto volume, baixa/moderada pressão (squeeze, seringa) |
RSC: rinossinusite crônica; RA: rinite alérgica; IVAS: infecção de vias aéreas superiores.
Fonte: desenvolvida pela autora.
Referências:
- Fokkens WJ, Lund VJ, Hopkins C, Hellings PW, Kern R, Reitsma S, et al. European position paper on rhinosinusitis and nasal polyps 2020. Rhinology. 2020;58(Suppl S29):1-464.
- Rosenfeld RM, Piccirillo JF, Chandrasekhar SS, Brook I, Kumar KA, Kramper M, et al. Clinical practice guideline (update): adult sinusitis. Otolaryngol Head Neck Surg. 2015;152(2 Suppl): S1-39.
- Academia Brasileira de Otorrino Pediátrica. Manual de lavagem nasal na criança e no adulto [manual na Internet]. São Paulo: ABORL-CCF; 2022 [acesso em 3 fev 2026]. Disponível em: https://aborlccf.org.br/wp-content/uploads/2022/11/1669816618_Manual_de_lavagem_nasal-v2.pdf.
- Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. V Consenso Brasileiro sobre Rinites 2024 [consenso na Internet]. São Paulo: ABORL-CCF; 2024 [acesso em 3 fev 2026]. Disponível em: https://d1xe7tfg0uwul9.cloudfront.net/aborlccf.org.br/wp-content/uploads/2024/09/17163545/ABORL-CCF-Consenso-Rinites-2024-e.pdf.
- Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. Rinossinusites: Evidências e Experiências 2024 [consenso na Internet]. São Paulo: ABORL-CCF; 2024 [acesso em 3 fev 2026]. Disponível em: https://aborlccf.org.br/wp-content/uploads/2024/11/ABORL-CCF-Consenso-Rinossinusite-2024-4.pdf.