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Impacto Metabólico de N-acetilcisteína (NAC) em Mulheres com SOMP

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é uma condição heterogênea em que manifestações reprodutivas e hiperandrogênicas coexistem com alterações metabólicas relevantes, especialmente resistência à insulina, disfunção glicêmica e maior risco cardiometabólico de longo prazo. Esse caráter multissistêmico motivou recentemente, em um consenso internacional publicado no The Lancet em 2026, a proposta de alteração da nomenclatura para síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP; PMOS, do inglês polyendocrine metabolic ovarian syndrome), buscando refletir de forma mais adequada seus componentes metabólicos e endócrinos. As diretrizes atuais recomendam avaliação metabólica estruturada, intervenção sobre estilo de vida e terapias individualizadas baseadas em evidência, reconhecendo que a carga clínica da SOMP ultrapassa o eixo reprodutivo e se estende ao metabolismo sistêmico1,2.

Nesse contexto, a N-acetilcisteína (NAC) vem sendo estudada por combinar ações antioxidantes e potencial efeito insulinossensibilizante. O racional biológico para seu uso é plausível: o estresse oxidativo participa da fisiopatologia da SOMP, relacionando-se à hiperinsulinemia, à disfunção ovariana e ao agravamento do ambiente inflamatório-metabólico. Como precursora da glutationa, a NAC pode modular espécies reativas de oxigênio e influenciar vias associadas à sinalização insulínica, o que sustenta sua investigação como estratégia adjuvante em fenótipos metabolicamente comprometidos3,4.

Em 2023 uma revisão sistemática e meta-análise sobre a NAC nos desfechos metabólicos foi publicada, reunindo 11 ensaios clínicos randomizados (869 mulheres com SOMP). Na revisão a NAC reduziu significativamente a glicemia de jejum quando comparada ao placebo e também quando comparada à metformina, enquanto os efeitos sobre índice de massa corporal, peso, insulina de jejum, triglicerídeos e LDL não atingiram significância estatística consistente na análise global. Houve ainda redução do colesterol total versus placebo, mas não versus metformina. Esses achados sugerem benefício metabólico detectável, porém parcial e não uniforme entre os diferentes marcadores avaliados3.

A heterogeneidade entre os estudos, contudo, limita a força interpretativa desses resultados. Os ensaios incluídos variaram quanto ao tempo de intervenção (6 a 24 semanas), população estudada, grau de obesidade, comparador e desfechos bioquímicos. Na própria meta-análise, análises por subgrupo sugeriram que reduções em IMC, glicemia e insulina podem ser mais evidentes em determinados contextos clínicos e após maior duração de uso, o que indica que o efeito metabólico da NAC talvez não seja universal, mas dependente de fenótipo e desenho terapêutico3.

Os estudos clínicos clássicos ajudam a compreender essa heterogeneidade. Em ensaio prospectivo com avaliação por clamp euglicêmico-hiperinsulinêmico, método padrão-ouro para mensuração da sensibilidade à insulina, a NAC melhorou a sensibilidade periférica à insulina e reduziu a área sob a curva de insulina após teste oral de tolerância à glicose, sobretudo em pacientes hiperinsulinêmicas, além de reduzir testosterona total e índice androgênico livre. Entretanto, em estudo randomizado com mulheres inférteis com SOMP  resistente ao citrato de clomifeno, a NAC não demonstrou melhora significativa de glicemia ou insulina de jejum e foi inferior à metformina na indução de ovulação, embora tenha reduzido testosterona total. Embora haja evidências de um possível benefício metabólico, a NAC não demonstra superioridade clínica consistente frente à metformina quando o comparador é uma terapia já consolidada como sensibilizadora à insulina3-5.

Com base nas evidências disponíveis, a NAC pode ser interpretada como uma alternativa ou adjuvante de interesse principalmente quando se busca modular glicemia de jejum e possivelmente alguns componentes do ambiente oxidativo-metabólico, especialmente em situações nas quais o uso da metformina seja limitado ou não adequadamente tolerado. Ainda assim, a evidência disponível não sustenta posicioná-la como padrão de tratamento metabólico da SOMP. Uma revisão sistemática prévia mostrou que, embora NAC tenha melhorado alguns desfechos reprodutivos versus placebo, não houve diferença robusta em IMC, testosterona, insulina ou eventos adversos versus placebo, e os autores destacaram risco de viés e necessidade de ensaios mais bem desenhados6.

Em síntese, a NAC apresenta potencial impacto metabólico modesto e biologicamente plausível em mulheres com SOMP, com efeito mais consistente sobre glicemia de jejum e sinal favorável, porém menos estável, em marcadores relacionados à resistência insulínica. Embora haja evidências de benefício metabólico, seu papel atual parece complementar e não substitutivo às abordagens estabelecidas, devendo ser considerado com cautela, em decisão individualizada e considerando a qualidade ainda limitada e heterogênea da evidência disponível, que ainda não sustenta seu posicionamento como estratégia metabólica padrão.

 

Referências

  1. Teede HJ, Tay CT, Laven JJE, Dokras A, Moran LJ, Piltonen TT, Costello MF, Boivin J, Redman LM, Boyle JA, Norman RJ, Mousa A, Joham AE. Recommendations From the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. J Clin Endocrinol Metab. 2023 Sep 18;108(10):2447-2469.  
  2. Teede HJ, Khomami MB, Morman R, Laven JSE, Joham AE, Costello MF, Patil M, Rees DA, Berry L, Cree MG, Zhao H, Norman RJ, Dokras A, Piltonen T; Global Name Change Consortium. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. Lancet. 2026 Jun 6;407(10545):2329-2339.
  3. Liu J, Su H, Jin X, Wang L, Huang J. The effects of N-acetylcysteine supplement on metabolic parameters in women with polycystic ovary syndrome: a systematic review and meta-analysis. Front Nutr. 2023 Sep 29;10:1209614.
  4. Fulghesu AM, Ciampelli M, Muzj G, Belosi C, Selvaggi L, Ayala GF, Lanzone A. N-acetyl-cysteine treatment improves insulin sensitivity in women with polycystic ovary syndrome. Fertil Steril. 2002 Jun;77(6):1128-35.
  5. Elnashar A, Fahmy M, Mansour A, Ibrahim K. N-acetyl cysteine vs. metformin in treatment of clomiphene citrate-resistant polycystic ovary syndrome: a prospective randomized controlled study. Fertil Steril. 2007 Aug;88(2):406-9.
  6. Thakker D, Raval A, Patel I, Walia R. N-acetylcysteine for polycystic ovary syndrome: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled clinical trials. Obstet Gynecol Int. 2015;2015:817849.

 

 

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